POR PAULA LIRA*
Não era um dia fácil, mas daqueles em que se testa um novo caminho para conseguir um lugar, em que se reza para não perder o ônibus e quando o trem para no meio do túnel, pouco antes de você descer. Era daqueles dias em que se está pronto para matar ou morrer, tudo para conseguir um espaço, um assento ou uma passagem. Uma luta constante contra o relógio, mas especialmente uma coreografia que precisa de outras pessoas para acontecer.
Um dia típico no metrô da terrinha era um espetáculo de balé, uma apresentação única e inédita, além de ser muito concorrida (as pessoas fazem filas enormes para pagar). E tudo fluía de uma forma tão natural que nem parecia que todos ensaiavam e ensaiavam exaustivamente cada passo todos os dias.
A dança começava na porta da estação, quando pernas longas e curtas apertavam o passo, mesmo não tendo horário para o destino, era inevitável não ser contagiado pelo ritmo pulsante e animado. Logo a frente, toda a pressa se condensava e os passos largos, eram reduzidos quando encontravam o gargalo das catracas. No momento em que se alcançava a esperada escada rolante, uma surpresa: a dança não parava, e seguia apressada na “faixa” rápida, como em uma rodovia.
O clímax do espetáculo era quando as portas do vagão de aço se abriam e com um movimento certeiro os dois fluxos, dos que vão e dos querem entrar, atingiam o seu objetivo. Mas era com o apito das portas anunciando o fim de um ato, que o coração disparava e pessoas saltavam graciosamente (ou não) para dentro. E por toda a sua dedicação e talento, os aplausos vinham naturalmente. Mesmo com todo o sacrifício, muitas vezes, as pessoas saltavam para o desconhecido e se descobriam cobertas de outras pessoas. Era em espetáculos assim, que quando um assento ficava vago, anjos do céu chegavam um pouco mais perto para cantar “Aleluia”.
Eu estava em um desses momentos, entre a dança e o coral de anjos, quando vi lá fora, dentro do trem que fazia o sentido inverso, algo que fugiu completamente de toda aquela coreografia selvagem. Um sorriso! Não era daqueles perdidos, iludidos ou dormentes, era um sincero, quando se reconhece alguém da mesma espécie.
Era uma menininha, que assim como eu, estava empoleirada na janela, e quando ela deu por si, ali estava outra pessoa procurando ar, gente e histórias. Os olhos se cruzaram por um instante breve e eterno, mas foi com um sorriso tímido e torto que tive a certeza que no metrô de cá, a pequena tinha achado o que procurava: vida lá fora.
domingo, 21 de abril de 2013
O dia em que o metrô sorriu
*Paula Lira é jornalista
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