sábado, 13 de abril de 2013

Fezes, Paralelepípedo e Tobogã

POR EDMAR SOUZA*

Ainda tenho bastante dificuldade, como muitos e muitos fãs, de separar a arte do artista. Sei bem que é sua produção que faz o artista ser quem ele é, e se tornar conhecido do grande público ou de alguns indivíduos que se interessam por seu estilo.

Tenho admiração pelos fãs que se desprendem de suas inseguranças e praticamente enfrentam os artistas, em busca de um autógrafo. É bem verdade que hoje em dia só o autógrafo não basta, é preciso a imagem, a foto com rosto colado ou o tchausinho para a câmera indiscreta que filma, desconsiderando até que o ídolo esteja desprovido de maquiagem.

Certa vez eu estava com um amigo no aeroporto de Buenos Aires, o Aeroparque Jorge Newbery, que fica às margens do Rio de la Plata. Eis que dou de cara com Caetano Veloso. Aonde Caetano ia, íamos atrás, com a câmera na mão. Tomamos coragem de pedir a ele que nos desse o prazer de uma foto? Claro que não. Caetano, criador de poemas e músicas para nosso pleno deleite, sumiu das nossas vistas.

Tudo isso porque estou admirado com a escrita de Rubem Fonseca. Foi a partir de seu conto “Copromancia” do livro Secreções, Excreções e Desatinos (Companhia das Letras, 2001) que eu me apaixonei pela arte de Rubem, mesmo que seja um conto sobre a relação de um homem com as suas fezes. Principalmente por isso.

Eu já havia sentido esse arrebatamento por Chico Buarque quando ouvira a palavra paralelepípedo em sua canção Vai Passar.

Até Caetano Veloso – aquele ídolo que eu perdi na Argentina – demonstra algo semelhante por Raul Seixas, quando da entrevista que concedeu para o filme Raul – o início, o fim e o meio (Paramount, 2012), do diretor Walter Carvalho. Nela, o cantor confessa, abestalhado, sua excitação ao recordar que Raul usara a palavra tobogã na canção Ouro de Tolo. Logo o baiano se põe a cantar e a recantar a música.

Amar a arte nos basta para estarmos próximos do artista. Eles são gente como a gente, inclusive na morte. Inclusive na capacidade de podermos admirar a genialidade por alguém conseguir transformar as coisas simples deste mundo em elementos belos para a eternidade.

*Edmar Souza é jornalista e escreve aos sábados.

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