Voltar à faculdade aos
29 anos foi uma experiência surreal. Eu não estava preparado para
as modificações ocorridas durante os anos em que passei longe da
Academia. Cheguei a ouvir de alguns colegas e também de professores,
que o problema estava comigo.
Lembrei que no
seminário o professor Olavo costumava dizer que, geralmente se
entende por educação superior o simples adestramento para as
profissões melhores, por isso, conclui-se, com acerto, que toda
pessoa normal é apta a recebê-la e que, na seleção dos
candidatos, qualquer elitismo é injusto, mesmo quando não resulte
de uma discriminação intencional e sim apenas de uma desigual
distribuição da sorte. Mas se por essa expressão se designa a
superação dos limites intelectuais do meio, o acesso a uma visão
universal das coisas, a realização das mais altas qualidades
espirituais humanas, então existe dentro de muitos postulantes um
impedimento pessoal que, mais dia menos dia, terminará por
excluí-los e por fazer com que a educação superior, no sentido
forte e não administrativo do termo, continue a ser de fato e de
direito um privilégio de poucos.
Esse impedimento,
graças a Deus, não é de ordem econômica, social, étnica ou
biológica. É um daqueles males humanos que, como o câncer e as
brigas conjugais, se distribuem de maneira mais ou menos justa e
eqüitativa entre classes, raças e sexos. É o único tipo de
imperfeição que poderia, com justiça, ser invocado como fundamento
de uma seleção elitista, mas que de fato não precisa sê-lo, pois
opera essa seleção por si, de maneira tão natural e espontânea
que os excluídos não dão pela falta do que perderam e chegam mesmo
a sentir-se bastante satisfeitos com o seu estado, reinando assim
entre os poucos felizes e os muitos infelizes uma perfeita harmonia,
salvaguardada pela distância intransponível que os separa.
O impedimento a que me
refiro não é material ou quantificável. O IBGE não o inclui em
seus cálculos e o Ministério da Educação o ignora por completo.
No entanto ele existe, tem nome e é conhecido há mais de dois
milênios. A mente treinada reconhece sua presença de imediato, numa
percepção intuitiva tão simples quanto a da diferença entre o dia
e a noite.
Os gregos chamavam-no
apeirokalia. Quer dizer simplesmente "falta de experiência das
coisas mais belas". Sob esse termo, entendia-se que o indivíduo
que fosse privado, durante as etapas decisivas de sua formação, de
certas experiências interiores que despertassem nele a ânsia do
belo, do bem e do verdadeiro, jamais poderia compreender as
conversações dos sábios, por mais que se adestrasse nas ciências,
nas letras e na retórica. Platão diria que esse homem é o
prisioneiro da caverna. Aristóteles, em linguagem mais técnica,
dizia que os ritos não têm por finalidade transmitir aos homens um
ensinamento definido, mas deixar em suas almas uma profunda
impressão. Quem conhece a importância decisiva que Aristóteles
atribui às impressões imaginativas, entende a gravidade extrema do
que ele quer dizer: essas impressões profundas exercem na alma um
impacto iluminante e estruturador. Na ausência delas, a inteligência
fica patinando em falso sobre a multidão dos dados sensíveis, sem
captar neles o nexo simbólico que, fazendo a ponte entre as
abstrações e a realidade, não deixa que nossos raciocínios se
dispersem numa combinatória alucinante de silogismos vazios,
expressões pedantes da impotência de conhecer.
Mas é claro que as
experiências interiores a que Aristóteles se refere não são
fornecidas apenas pelos "ritos", no sentido técnico e
estrito do termo. O teatro e a poesia também podem abrir as almas a
um influxo do alto. À música — a certas músicas — não se pode
negar o poder de gerar efeito semelhante. A simples contemplação da
natureza, um acaso providencial, ou mesmo, nas almas sensíveis,
certos estados de arrebatamento amoroso, quando associados a um forte
apelo moral (lembrem-se de Raskolnikov diante de Sônia, em Crime e
Castigo), podem colocar a alma numa espécie de êxtase que a liberte
da caverna e da apeirokalia.
Porém, com mais
probabilidade, as experiências mais intensas que um homem tenha tido
ao longo de sua vida serão de índole a desviá-lo do tipo de coisa
que Aristóteles tem em vista. Pois o que caracteriza a impressão
vivificante que o filósofo menciona é justamente a impossibilidade
de separar, no seu conteúdo, a verdade, o bem e a beleza. De Platão
a Leibniz, não houve um só filósofo digno do nome que não
proclamasse da maneira mais enfática a unidade desses três aspectos
do Ser. E aí começa o problema: muitos homens não tiveram jamais
alguma experiência na qual o belo, o bem e o verdadeiro não
aparecessem separados por abismos intransponíveis. Esses homens são
vítimas da apeirokalia — e entre eles contam-se alguns dos mais
notórios intelectuais que hoje fazem a cabeça do mundo.
Infelizmente, o número
dessas vítimas parece destinado a crescer. Já em 1918, Max Weber
assinalava, como um dos traços proeminentes da época que nascia, a
perda de unidade dos valores ético-religiosos, estéticos e
cognitivos. O bem, o belo e a verdade afastavam-se velozmente, num
movimento centrífugo, e em decorrência
"os valores mais
sublimes retiraram-se da vida pública, seja para o reino
transcendental da vida mística, seja para a fraternidade das
relações humanas diretas e pessoais... Não é por acaso que hoje
somente nos círculos menores e mais íntimos, em situações humanas
pessoais, é que pulsa alguma coisa que corresponda ao pneuma
profético, que nos tempos antigos varria as grandes comunidades como
um incêndio".(nota 1)
As duas fortalezas do
sublime, que Weber menciona, não demoraram a ceder: a vida mística,
assediada pela maré de pseudo-esoterismo que se apropriou de sua
linguagem e de seu prestígio, acabou por se recolher à
marginalidade e ao silêncio para não se contaminar da tagarelice
profana. A intimidade, vasculhada pela mídia, violada pela
intromissão do Estado, tornada objeto de exibicionismo histérico e
de bisbilhotices sádicas, desapropriada de sua linguagem pela
exploração comercial e ideológica de seus símbolos, simplesmente
não existe mais.
Toda a literatura do
século XX reflete esse estado de coisas: primeiro a
"incomunicabilidade" dos egos, depois a supressão do
próprio ego: a "dissolução do personagem". Mas, desde
Weber, muita água rolou. Nas proximidades do fim do milênio, o que
se entendia por mística é um cerebralismo de filólogos; por
intimidade, o contato carnal entre desconhecidos, através de uma
película de borracha. Os três valores supremos já não são apenas
autônomos, mas antagônicos. O belo já não é apenas alheio ao
bem: é decididamente mau; o bem é hipócrita, pseudo-sentimental e
tolo; a verdade, feia, estúpida e deprimente. A estética celebra os
vampiros, a morte da alma, a crueldade, o macho que mete o braço até
o cotovelo no ânus de outro macho. A ética reduz-se a um discurso
acusatório de cada um contra seus desafetos, aliado à mais cínica
auto-indulgência. A verdade nada mais é o consenso estatístico de
uma comunidade acadêmica corrompida até à medula.
Nessas condições, é
um verdadeiro milagre que um indivíduo possa escapar por instantes
da redoma de chumbo da apeirokalia, e outro milagre que, ao retornar
ao pesadelo que ele denomina "vida real", esses instantes
não lhe pareçam apenas um sonho, que não se deve mencionar em
público.
Mas nada proíbe um
escritor de dirigir-se, em suas obras, aos sobreviventes do naufrágio
espiritual do século XX, na esperança de que existam e não sejam
demasiado poucos. Acossados pelo assédio conjunto da banalidade e da
brutalidade, esses podem conservar ainda uma vaga suspeita de que em
seus sonhos e esperanças ocultos há uma verdade mais certa do que
em tudo quanto o mundo de hoje nos impõe com o rótulo de
"realidade", garantido pelo aval da comunidade acadêmica e
da Food and Drug Administration. É a tais pessoas que me dirijo
exclusivamente, ciente de que não se encontram com mais freqüência
entre as classes letradas do que entre os pobres e os desvalidos.
NOTAS
Max Weber, "A
ciência como vocação", em Ensaios de Sociologia, org. H. H.
Gerth e C. Wright Mills, trad. Waltensir Dutra, rev. por Fernando
Henrique Cardoso, 5ª ed., Rio, Guanabara, 1982, p.182.

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