segunda-feira, 18 de março de 2013

Política, religião, os gays e a Bíblia

Em tempos de tantas discussões sobre homofobia, motivadas pela nomeação do Pastor Marco Feliciano para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, além de questões relacionadas à união civil entre homossexuais, vale relembrar um texto do Frei Betto publicado no jornal O Globo há quase dois anos sobre a relação entre os gays e a bíblia e que, apesar de publicado há quase 2 anos atrás, se mostra bastante atual. Logo depois farei algumas considerações:

OS GAYS E A BÍBLIA

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as "pessoas diferenciadas"...).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países-membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela "despenalização universal da homossexualidade".

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hetero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que "quem ama conhece a Deus" (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis, ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os "eunucos de nascença" (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão; e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

FREI BETTO é escritor.

A religião deve ser inclusiva e não segregadora. Os políticos ditos cristãos parecem não se lembrar disso ou fazer questão de esquecer afinal combater os gays é mais importante pois o embate chama a atenção da imprensa. Gera votos. Mostra trabalho. Mostra mais atuação que promover causas sociais e apoio aos necessitados. A cada tempo um vilão, um demônio novo, uma orientação, uma segregação.

E o Estado, que deveria ser laico, se mostra cada vez mais preso a acordos políticos de bastidores que muitas vezes parecem debochar do bom senso. Afinal, eleger um pastor que faz declarações racistas e homofóbicas nas redes sociais é quase uma afronta ao bom senso. Transformam a religião em partido e em justificativa.

Transformam Deus em bode expiatório de medos e preconceitos, justificando para tal os mesmos trechos, ironias e esquecendo a lição principal que esse mesmo Deus, usado como desculpa para agredir, nos traz todo dia: é preciso amar o próximo e respeitá-lo como filho de Deus. Porém, o amor e o respeito ao próximo não pagam dízimos e muito menos trazem votos.

Leia também:

Fieis apoiam permanência de Marco Feliciano na CDH e o comparam a Jesus Cristo
Tapa aqui, descobre ali
"Lugar de religião é na Igreja", afirma presidente do Partido Trabalhista Cristão
Cantores protestam contra eleição de Marco Feliciano
A falta de bom senso dos seguidores de Marco Feliciano
Marco Feliciano: reivindicações feministas estimulam o homossexualismo
O "dia do fico" de Marco Feliciano 
Marco Feliciano afirma que publicações em redes sociais são "postagens filosóficas"

0 comentários :

Postar um comentário