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| Foto: Matheus Tagé/ DL |
Histórias como a do casal Horst Ulmer e Olga Petty Ulmer, personagens da reportagem, são mais comuns do que imaginamos e revelam o caos e a burocracia que dificultam o atendimento e, em alguns casos, levam à morte do paciente, aumentando a agonia de parentes e amigos e alimentando a dor de quem precisa de atendimento. Veja a reportagem de Carlos Ratton. Comento logo depois:
Casal vive saga em busca de assistência médica
Se qualquer cidadão com acesso à Internet pesquisar o que é o Sistema Único de Saúde (SUS) vai encontrar, entre as explicações, que se trata de um dos maiores sistemas de atendimento médico público do mundo, tornando o acesso gratuito à saúde direito de todo cidadão. Porém, em Santos, especificamente para Horst Ulmer, de 73 anos, há um verdadeiro abismo entre a teoria e a prática.
Após ter sofrido uma queda na escadaria de seu prédio, em fevereiro do ano passado, Ulmer, apesar de nunca ter cometido crime algum, vive há meses sob “prisão domiciliar”, depressivo e sem esperança, porque, mesmo ganhando na Justiça o direito de ser operado urgente, se vê obrigado a engrossar uma interminável fila de espera pela cirurgia.
Sem poder andar e com fortes dores, Ulmer – que ainda possui problemas no coração e na próstata – não é o único que sofre sobre uma cama e à base de remédios. Sua esposa, Olga Petty Ulmer, de 71 anos, se divide entre dar assistência ao marido e visitas periódicas ao Setor de Ortopedia e Traumatologia da Santa Casa de Misericórdia de Santos para tentar garantir o cumprimento da decisão judicial.
Olga Ulmer fala com voz embargada sobre a rotina do casal. Segundo ela, na Santa Casa de Santos, o discurso é sempre o mesmo: “Dizem que eu tenho que voltar de seis em seis meses para marcar uma nova consulta para não perder o vínculo. A próxima consulta vai ocorrer em 2 de maio. Meu marido é o 40º da lista. Eu já procurei o hospital duas vezes”.
Na DRS-IV, Olga afirma que a sorte não muda. “Dizem que não receberam intimação alguma e que não existe ordem judicial para operar meu marido. Tenho que reunir forças para não perder as esperanças”, afirma.
Mesmo com dificuldades, Horst tenta ajudar a esposa a explicar. “Nunca é o mesmo médico. Tem ocasião que o profissional sequer olha o Raio-X. Apenas receitam remédio contra a dor e mandam voltar seis meses depois para uma nova consulta”.
O advogado do casal, Daniel de Lima Antunes, explica que conseguiu, em segunda instância, o direito de Horst Ulmer ser operado imediatamente, porém, o responsável pela Diretoria Regional de Saúde (DRS-IV), Marco Botteon Neto, vem se negando cumprir ordem judicial apesar de, em janeiro último, ter assinado a segunda intimação. “Estamos pedindo nova intimação, sob pena de crime de desobediência, mas até agora nada. O senhor Ulmer continua sofrendo em sua casa”, afirma o advogado.
Câmara
A situação desesperadora do casal Ulmer já chegou à Câmara de Santos, por intermédio do vereador Antônio Carlos Banha Joaquim (PMDB), que está tentando mudar a realidade dos idosos. “Esse senhor está confinado, sendo desrespeitado e tem que ser ajudado. Ele mora em um prédio sem elevador e depende da ajuda de vizinhos para ir a uma consulta que nada adianta. Um desrespeito flagrante a quem trabalhou neste País”.
Cirurgia em abril
Procurado pela reportagem, o Departamento Regional de Saúde (DRS) de Santos informou, por intermédio da Assessoria de Imprensa, que a consulta pré-cirúrgica está agendada para o próximo dia 21, na Santa Casa de Santos, e a cirurgia deverá ser realizada no início de abril.
O DRS de Santos ressalta que respeita e cumpre todas as decisões judiciais e que o paciente citado é morador do Município de Santos. Por isso, será atendido na Santa Casa, que está sob gestão do Município e cujos agendamentos independem do DRS.
A história de Horst Ulmer e Olga Petty Ulmer se junta à de tantas Marias e Josés Brasil afora, com histórias tão ou mais dramáticas. Histórias como a narrada pela revista Época sobre um menino de 14 anos que morreu porque as autoridades se recusaram – mesmo com ordem da Justiça – a fornecer um aparelho simples para ajudá-lo a respirar.
Histórias que poderiam ser diferentes se houvesse maior respeito pela vida. Afinal não basta anunciar que o Brasil está erradicando a miséria se os problemas na área da saúde, constantemente denunciados, ainda são frequentes. Mortes que poderiam ser evitadas se houvesse um trabalho sério e respeitoso na saúde, principalmente se o mesmo afinco usado para aprovar medidas que algumas vezes parecem legislar em causa própria fosse usado para solucionar problemas antigos e reincidentes.
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