A Revista Época dessa semana traz uma matéria de 12 páginas sobre Michel Teló. A chamada de capa diz "Ele ainda vai te pegar". Não quero parecer rigorosamente intelectual, nem mesmo um chato. Mas o Michel Teló não vai me pegar muito menos considero que ele representa os "valores da cultura popular", como aponta a reportagem.
"Delícia, delícia" não é a tradução da música popular brasileira. Essa letra não fala nada ao público jovem, apenas coloca em discussão um valor já trabalhado por grupos como É O Tchan. Afirmar que isso é traduzir a cultura popular e usar o sertanejo como escudo é relegar a um terceiro ou quarto plano músicas como Tocando em Frente. É afirmar que Almir Sater ou até mesmo Sérgio Reis são dois ilustres desconhecidos.
Por outro lado, essa é uma tendência que vem de fora. As letras de Rihanna e Britney Spears, por exemplo, não ficam longe disso. Basta ver a tradução de qualquer canção delas. Parte disso é responsabilidade da industrialização musical, que exige um lançamento a cada estação. Nesse sentido, a canção cumpre seu papel pois qualquer um que ouça essa canção fica com seu refrão "grudado" na memória.
Numa escala menor, vários funks já cumpriram esse papel e Teló conseguiu ir além das fronteiras e foi pro mundo, com direito a versão em inglês. Para quem gosta, realmente deve ser motivo de orgulho ter uma "música chiclete" de origem nacional fazendo sucesso pelo mundo.
Talvez Michel Teló realmente represente um grupo, uma classe ou uma época. Mas afirmar que ele representa a cultura popular é desmerecer o trabalho de tantos outros que o precederam, não só no sertanejo como na MPB e até mesmo na música bahiana. É simplificar demais algo que é muito mais complexo e se arrasta há muito mais tempo que uma simples "fugidinha" ou um "psiu, beijo me liga".
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Michel Teló e a cara da cultura brasileira
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Meu caro Jonatas,
ResponderExcluircomo é bom ler um texto como o seu! Nestes tempos de falta de critério, onde a mídia insiste em querer chamar a cultura do divertimento puro (nada contra, só vamos fazer as distinções necessárias) como sendo a representação da cultura de um povo, a gente acaba se sentindo muito solitário. Solitário porque parece que somos os únicos a separar o que é um trabalho elaborado e de arte do que é descartável e passageiro. Hoje os meios de comunicação querem enfiar goela abaixo de todos este pop romantico e batidão como se isso fosse "A" música brasileira. O seja, não basta eles lucrarem rios de dinheiro, eles ainda querem enobrecer essa música pobre de letra, harmonia e conteúdo para transformar os seus ídolos em sucessos de público e crítica. Sinto muito, mas Michel Teló e sua turma jamais vão "me pegar".
Prarabéns pelo texto.
Renato Fraguas (renatofraguas@uol.com.br)