Estava voltando de uma reportagem quando uma mulher parou e pediu dinheiro. No início a reação foi padrão: disse que não tinha e comecei a fechar o vidro do carro. Ela se afastou do veículo e então percebi a tristeza, o sofrimento e a angústia vivida por aquela senhora: após o meu não, abaixou a cabeça e saiu em busca de uma lata vazia de refrigerante ou cerveja, que se juntaria às outras que estavam em um saco e provavelmente seriam vendidas para ela ter dinheiro. Percebi que poderia ser diferente e tirei um dinheiro do bolso e entreguei para a mulher.
Às vezes sinto como se tivéssemos criado uma blindagem que nos deixa insensíveis a estas histórias. Afinal é tão comum vermos gente pedindo esmola aqui e ali para comprar drogas e bebidas que já não sabemos mais quando o pedido é para matar a fome ou sustentar o vício. Sem falar dos casos de exploração do trabalho infantil e até mesmo nos assaltos.
Isso acontece pois a esmola dada nem sempre é de fato uma esmola emprestada a Deus: doamos com bondade, mas o destino final não é aquele que nos comoveu. E assim deixamos várias oportunidades passar, pois não acreditamos mais nas histórias que nos são contadas.
Lembro de duas histórias que me marcaram. Uma vez, um homem entrou no ônibus pedindo dinheiro para comprar remédios e comida, pois não podia trabalhar e precisava de recursos. No dia seguinte, vi o mesmo homem saindo de um cinema pornô no centro da cidade. Isso me fez refletir sobre o real uso do dinheiro que tantas pessoas deram, achando que estavam emprestando a Deus.
Em mais um caso, outro homem entrou pedindo dinheiro para completar a passagem de volta para a cidade dele. Após uma história dramática, que parece ter saído de algum folhetim, várias pessoas doaram notas de 2, 5 e uma senhora mais humilde se mostrou penalizada e deu uma nota de 10 para ele. Ele continuou pedindo, dizendo que ainda faltava um valor para completar, como se estivesse em um leilão. Quando percebeu que ninguém mais doaria, ele ficou irritado e começou a xingar. Esbravejava dizendo que precisava do dinheiro e que todos naquele ônibus tínhamos a obrigação de ajudá-lo. Isso mesmo: obrigação.
Assim, cada vez mais parecer que esmolar é um mercado lucrativo, sem impostos nem tributos e obrigações formais como previdência e nota fiscal. O trabalho pode ser realizado em qualquer esquina ou ônibus. Em qualquer bar ou posto. Basta encontrar alguém com bom coração e crente no fato de que dar esmola de fato é agir com caridade.
E às vezes de fato o é. Entretanto, cada vez mais estamos sem conseguir discernir entre o oportunismo e a necessidade. Em alguns casos o primeiro se disfarça do segundo e a indecisão se instala de um jeito tão grande que é mais fácil fechar a janela do carro e ir embora.


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