O Luis Nassif
postou um texto de um dos leitores de seu blog contando o caso de um menino negro de seis anos e filho de um casal espanhol que foi colocado do lado de fora de um restaurante. Ele foi confundido com jovens moradores de rua que vivem pedindo comida no estabelecimento.
A delegada que atendeu ao caso teria até pedido desculpas e que também os primos do autor do texto não levem uma impressão ruim do Brasil. Entretanto, devemos olhar essa questão do racismo de outra forma.
Inúmeras situações relacionadas ao preconceito racial acontecem por aí a ponto de podermos afirmar que isso é parte de uma normalidade absurda. E basta ser negro para sentir isso na pele. Não vou apelar para clichês que tratam o negro como sendo "da cor do pecado", deixando uma questão sexual enraizada em um preconceito racial que o coloca como puro e simples objeto sexual.
Dizem que quanto mais "escuro", mais se sofre. Por aí dizem que sou "moreno queimadinho de praia" (hã?), minha documentação afirma que sou "pardo" e mesmo sem saber ao certo o que sou (basta lembrar da miscigenação brasileira que dificulta e até impossibilita esse tipo de classificação), já sofri racismo. Vou contar dois casos pessoais e caso você conheça alguma história ou já tenha passado por alguma situação, use o sistema de comentários para contar.
Certa vez estava andando com um amigo, branco, e passamos por uma loja de tênis. Paramos por um instante para observar algo na vitrine e uma vendedora olhou-nos sem dar grande atenção. Seguimos nosso caminho e cinco minutos depois eu voltei, sozinho, e perguntei o preço de um modelo que vi e que fiquei interessado. A mesma vendedora ficou apavorada. Era visível o medo que ela sentia. Logo meu amigo voltou, viu que estava dentro da loja, entrou e pude perceber que ela ficou mais aliviada.
Na ocasião estávamos trajados como qualquer jovem de classe média em uma cidade litorânea: camisa, bermuda e tênis. Não sei qual segurança ela teve ao perceber meu amigo, branco, dentro da loja. E se fosse só meu amigo, branco, que entrasse na loja?
Porém, a questão da vestimenta não influi muito quando o assunto é racismo. A cor da pele fala mais alto seja qual for a situação. De outra feita, fui atravessar uma rua de grande movimento e uma senhora do meu lado falava com a filha. Esta senhora foi pegar o celular, segurou no braço da filha, se afastou, me olhou e fez sinal para a filha me apontando como se fosse uma ameaça à segurança delas. Na ocasião estava trajando camisa polo preta bem passada, calça jeans e sapatos bem engraxados.
Além disso, uma amiga sempre é confundida como funcionária de qualquer loja: seja do supermercado, farmácia ou loja de roupa. E não importa a vestimenta que ela usa. Certa vez ela estava ao lado de uma funcionária devidamente uniformizada e uma mulher quis falar com minha amiga como se ela fosse a responsável pelo arrumação da prateleira.
O caso citado no início é mais um que ilustra uma triste realidade: o negro sempre é colocado como bandido, objeto sexual, pedinte, marginal. E isso acontece todo dia e envolve até mesmo parentes e amigos. Mesmo sabendo que pouco mais da metade da nossa população (50,3%) se declara da cor/raça parda ou preta, segundo dados de 2010 do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). São quase 96 milhões de pessoas que podem ser vítimas desse tipo de situação em padarias, lojas e esquinas.
Temos que olhar para dentro da nossa casa, o Brasil, e percebermos que o problema é nosso e causa transtornos diariamente para milhares de pessoas. Afinal, tão importante quanto cuidar para os estrangeiros não levarem uma impressão ruim do nosso país, temos de ter atenção para não causar uma imagem negativa em quem já está aqui, evitando a sensação de "normalidade" que o assunto ganha muitas vezes.